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Home » Issue 4 » Como é que os músculos produzem trabalho? Usando pinças ópticas no estudo de máquinas moleculares Como é que os músculos produzem trabalho? Usando pinças ópticas no estudo de máquinas molecularesTraduzido por Ana Luísa Carvalho
Actualmente, existe um grande entusiasmo em torno da nanotecnologia, a área de investigação que explora e procura controlar o mundo microscópico. No meu laboratório no King's College, em Londres, usamos um equipamento designado de “pinças moleculares” para manipularmos e estudarmos estes motores individualmente. As máquinas microscópicas fabricadas pelo ser humano podem ainda pertencer ao mundo da ficção científica, mas, através de experiências deste tipo, podemos ir aprendendo as primeiras lições. Se compreendermos pormenorizadamente como funcionam estas moléculas, saberemos como a natureza, ao longo da evolução, conseguiu produzir, a partir de elementos tão simples, formas de vida tão diferentes. Existem na natureza muitos tipos de “máquinas” constituídas por uma só molécula e as tarefas que desempenham são tão variadas quanto vitais. Permitem que as células vivas funcionem, se movimentem e se reproduzam. Por exemplo, algumas transportam nutrientes através da célula, “passeando” ao longo de uma rede de transporte intracelular. Pensa-se que os motores de tamanho molecular possuam um desempenho crucial na divisão celular ao promoverem a separação dos cromossomas, após a replicação. Outros tipos de motores permitem a rotação dos flagelos que propulsionam os espermatozóides e alguns tipos de bactérias. Estruturalmente, muitos destes motores são semelhantes; no entanto, desempenham tarefas muito distintas. A contracção muscular resulta do deslizamento de dois tipos de filamentos, um sobre o outro. Um destes filamentos é constituído por miosina (o motor), o outro é constituído por actina (ver figura). Os dois tipos de filamentos encontram-se sobrepostos na célula muscular, por forma a maximizar as interacções entre eles Durante cada ciclo, os dois filamentos deslizam um sobre o outro por uma pequena distância – é esta a base da contracção muscular. As forças e os movimentos produzidos num só ciclo são muito pequenos, mas a combinação de milhões de moléculas de miosina agindo simultaneamente amplifica este efeito por várias ordens de magnitude. Os músculos e a miosina têm sido objecto de estudo dos biólogos, há já várias décadas, no entanto, há ainda muito por saber: qual a força exercida por cada molécula individual de miosina e que distância conseguem puxar? Como é que o ambiente químico afecta a duração de um ciclo? Sabemos que o trabalho total realizado pela molécula de miosina é fortemente afectado pela força externa que tem que contrariar, mas a relação entre elas é pouco compreendida. Devido ao seu pequeno tamanho, as moléculas como a miosina reagem ao ambiente que as rodeia de uma forma muito diferente, quando comparamos com moléculas maiores. Por exemplo, ao contrário do que acontece no motor de um automóvel, os efeitos da viscosidade do meio e do bombardeamento contínuo de moléculas de água (o fenómeno conhecido como movimento browniano) são consideráveis. À escala molecular, o movimento através da água é comparável à experiência de tentarmos nadar em mel turbulento! Os cientistas são insaciavelmente curiosos. Os teóricos elaboram modelos que sugerem como os músculos funcionam, mas apenas o trabalho experimental é que nos pode trazer mais conhecimento. No entanto, um conhecimento detalhado da acção da miosina não pode ser adquirido a partir da observação de um músculo completo, porque o que observamos é apenas o efeito global de muitos motores de miosina actuando de forma independente. O que necessitamos é de uma forma de controlar e examinar as moléculas de miosina isoladas. Mas isto é um desafio monstruoso por si só. Estes não são objectos que possamos pegar e manipular facilmente! A nossa experiência em King's College é desenhada por forma a recrear, sob o microscópio, a unidade básica de um músculo em contracção. O objectivo é investigar como uma molécula de miosina responde a uma força externa aplicada ao filamento de actina, por acção das pinças ópticas. Primeiro, elaboramos duas armadilhas atravessando dois feixes de laser nas objectivas do nosso microscópio (ver figura). Cada armadilha vai aprisionar uma esfera de plástico de 1 micron, revestida por forma a ligar-se a filamentos de actina. Um filamento isolado é preso e esticado entre as esferas, produzindo uma espécie de haltere. Em seguida, guiamos o haltere na direcção de outra esfera presa à superfície da lamela do nosso microscópio, lamela essa, revestida com moléculas de miosina. Com as condições apropriadas, conseguimos que apenas uma molécula de miosina, no topo da esfera, interaja com o filamento de actina do haltere, tal como aconteceria numa fibra muscular.
Nem é necessário dizer que estas experiências requerem uma boa dose de paciência. Também exigem a colaboração de cientistas com diferentes especializações. Os biólogos são essenciais para relacionarem os resultados experimentais com o conhecimento já adquirido sobre o comportamento fisiológico dos músculos, e para assegurarem que o projecto segue na direcção certa. Os físicos são igualmente importantes ao planearem e garantirem o funcionamento dos componentes ópticos e electrónicos do equipamento e para a análise quantitativa dos resultados. Como em qualquer área de investigação, as fronteiras do nosso conhecimento só se alargam se tentarmos coisas novas e se formos infinitamente curiosos. Da próxima vez que pensares que nada é mais simples que atirar uma bola de basquete, pensa outra vez. Opinião A nanotecnologia é o tema do momento na ficção científica e também na investigação mais avançada e, neste interessante artigo, Alexandre Lewalle descreve-nos os nanomotores das células musculares (os pequenos filamentos de actina e miosina) e como podem ser estudados por intermédio de nanoferramentas (as pinças ópticas). O artigo, escrito de uma forma agradável com exemplos claros e metáforas vívidas, é adequado aos professores de biologia que queiram actualizar os seus conhecimentos e para estudantes do ensino secundário interessados na investigação mais actual. Embora o tópico abordado não faça parte dos currículos escolares, encontra-se relacionado com fisiologia e bioquímica, sendo um bom exemplo da investigação actual na área da biomedicina. Pode ser usado para captar o interesse dos jovens na ciência e encorajá-los a prosseguirem os seus estudos nas áreas científicas
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